Santo Padre

Como viver sem Vós? Pois só Vós sois capaz de conhecer os foros mais íntimos de minha alma que são desconhecidos e incompreendidos pelos que me circundam. Só Vós conheceis a minha fé que não deve ser levada a nada menos que ao sangue derramado se necessário for, a renunciar as mais belas criaturas por amor a Vós, divino Amor. Não posso, Cristo, aceitar as condições da falaciosa doutrina liberal, as quais não consigo me conformar sem antes renunciar a mim mesmo, e, portanto, Vos renunciar em nome da consciência individual e dos princípios criados por vãs filosofias, tortuosas concepções e pela separação da natureza do Criador, ou ainda, de uma humanidade que já não mais Vos conhece e a qual, pela graça, não aprendi me conformar; num mundo onde o homem moderno não mais se dobra, e onde eu, pobre, não estou preparado para ser homem segundo o direito sem Deus. Creio porque creio, e sempre hei de crer, porque só Vós sabeis que é Vossa Face que eu procuro. (O Atanasiano)

Pater, si non potest hic calix transire nisi bibam illum, fiat voluntas Tua. (St. Mat. XXVI, 42)




Trecho da entrevista do Cardeal Cañizares concedida a Antonio Pelayo para Vida Nueva. Perguntas em respostas à perguntas, eis o que o Cardeal nos oferece nessa entrevista que ele mesmo chamou de reflexão sobre os problemas que sempre levam a um ponto de convergência comum: - O CONCÍLIO. Tradução: O Atanasiano.

Há um retrocesso em matéria litúrgica? Quais são as chaves para a "reforma da reforma"?

Não sei podemos falar em retrocesso, porque primeiro haveria de se saber se antes ocorreu ou não um avanço [ndt.: há dúvidas disso Eminência?] ou em que pontos e em que aspectos se deu esse progresso; também pode suceder que, em algumas ocasiões e subjetivamente, se há considerado, ou visto como avanço, o que na realidade não o era, ou não era suficientemente, ou não se apoiava nos fundamentos em que deveria se sustentar. Nada pode por em dúvida que o Vaticano II pôs a Sagrada Liturgia, como a Palavra de Deus, no centro da vida e missão da Igreja; é muito significativo, na linguagem dos acontecimentos pelos quais Deus fala, o fato de que a Sacrosanctum Concilium foi o primeiro texto aprovado; é inegável, ademais, que desde aí se produziu uma grande renovação litúrgica.

Agora, se pode afirmar que todo o que foi feito e que se faz é a renovação litúrgica querida pelo Concílio? A renovação querida e impulsionada pelo Concílio em verdade penetrou suficientemente e chegou a ser medular nos aspectos da vida e missão do povo de Deus? Pode-se chamar de renovação conciliar e desenvolvimento tudo o que veio depois? Temos de ser humildes e sinceros: o principal e grande chamado do Concílio para que a liturgia fosse a fonte e a meta de toda a vida cristã, está se cumprindo na consciência dos sacerdotes e dos leigos, ou ao contrário, estamos ainda muito longe de que seja assim? O povo de Deus, fiéis, pastores, vivem de verdade a liturgia, ela está no centro de nossas vidas? Se há ensinado e assimilado os ensinamentos conciliares, se há mantido a fidelidades aos mesmos, ou se interpreta corretamente usando a chave da continuidade que pede o Papa?

Não planto perguntas retóricas; hoje é muito necessário fazê-las. As respostas sempre nos fazem voltar até a mesma origem: - O Concílio. Por isso, as chaves que você me pergunta para a assim chamada "reforma da reforma" não são outras que as que já foram dadas pelo Concílio Vaticano II na Sacrosanctum Concilium e pelo posterior magistério dos Papas, que indicam e interpretam autenticamente seus ensinamentos conforme uma "hermenêutica da continuidade".

[ATUALIZAÇÃO] continua o Cardeal: Vivemos numa situação dramática, caracterizada pelo esquecimento de Deus e pelo viver como se Deus não existisse; isto, como é evidente e palpável, está promovendo gravíssimas conseqüências aos homens. Só a vida litúrgica posta no centro de tudo, só uma renovação litúrgica em profundidade, somente a restituição da liturgia, e singularmente da Eucaristia, ao lugar que lhe corresponde na vida da Igreja, dos sacerdotes e dos fiéis, tal como a Igreja a entende, a orienta e regula, em fidelidade com a natureza e com a Tradição, poderá nos fazer voltar verdadeiramente para Deus, situar Deus no centro, fundamento, sentido e meta de tudo, e assim, tornar possível uma humanidade nova, feita de homens e mulheres novos que adoram a Deus; abrir caminhos de esperança e iluminar o mundo com a luz e a beleza da caridade que a liturgia faz brotar: a liturgia nos situa diante de Deus mesmo, diante a ação de Deus, Seu amor; só poderemos impulsionar uma urgente e premiada nova evangelização se a liturgia recobra o lugar que a pertence na vida de todos os cristãos.

É preciso, segundo vejo, reconhecer que a liturgia hoje não está sendo a alma, a fonte e a meta da vida de muitos cristãos, leigos ou sacerdotes: quanta rotina e mediocridade, quanta trivialização e superficialidade nos têm metido! Quantas missas celebradas de qualquer maneira ou assistidas com qualquer disposição! Aqui está nossa grande debilidade. É muito necessário levar ao conhecimento dos fiéis que a liturgia é, antes de tudo, obra de Deus, e que nada se pode antepor a ela. Somente Deus, a “revolução de Deus”, Deus no centro de tudo, poderá renovar e mudar o mundo.

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Todavia - embora sejam importantes as palavras do Cardeal Canizares -, há que se ressaltar que tudo corre o risco de continuar mero discurso, mero “projeto de renovação do sentido litúrgico”, se 1) homens errados forem nomeados bispos; 2) Não se agir disciplinarmente em relação à RCC, Neocatecumenato, Taizé etc, que não se cansam de desmitificar a liturgia, ou, usando as palavras do próprio Cardeal: que têm nos metido numa
"rotina e mediocridade, numa trivialização e superficialidade" e 3) se olhar para a Tradição não como argumento de parlatório, mas como fonte indefectível de segurança para fé.

Fonte: Santa Maria Reina