Trecho da entrevista do Cardeal Cañizares concedida a Antonio Pelayo para Vida Nueva. Perguntas em respostas à perguntas, eis o que o Cardeal nos oferece nessa entrevista que ele mesmo chamou de reflexão sobre os problemas que sempre levam a um ponto de convergência comum: - O CONCÍLIO. Tradução: O Atanasiano.
Há um retrocesso em matéria litúrgica? Quais são as chaves para a "reforma da reforma"?Não sei podemos falar em retrocesso, porque primeiro haveria de se saber se antes ocorreu ou não um avanço [ndt.: há dúvidas disso Eminência?] ou em que pontos e em que aspectos se deu esse progresso; também pode suceder que, em algumas ocasiões e subjetivamente, se há considerado, ou visto como avanço, o que na realidade não o era, ou não era suficientemente, ou não se apoiava nos fundamentos em que deveria se sustentar. Nada pode por em dúvida que o Vaticano II pôs a Sagrada Liturgia, como a Palavra de Deus, no centro da vida e missão da Igreja; é muito significativo, na linguagem dos acontecimentos pelos quais Deus fala, o fato de que a Sacrosanctum Concilium foi o primeiro texto aprovado; é inegável, ademais, que desde aí se produziu uma grande renovação litúrgica.
Agora, se pode afirmar que todo o que foi feito e que se faz é a renovação litúrgica querida pelo Concílio? A renovação querida e impulsionada pelo Concílio em verdade penetrou suficientemente e chegou a ser medular nos aspectos da vida e missão do povo de Deus? Pode-se chamar de renovação conciliar e desenvolvimento tudo o que veio depois? Temos de ser humildes e sinceros: o principal e grande chamado do Concílio para que a liturgia fosse a fonte e a meta de toda a vida cristã, está se cumprindo na consciência dos sacerdotes e dos leigos, ou ao contrário, estamos ainda muito longe de que seja assim? O povo de Deus, fiéis, pastores, vivem de verdade a liturgia, ela está no centro de nossas vidas? Se há ensinado e assimilado os ensinamentos conciliares, se há mantido a fidelidades aos mesmos, ou se interpreta corretamente usando a chave da continuidade que pede o Papa?
Não planto perguntas retóricas; hoje é muito necessário fazê-las. As respostas sempre nos fazem voltar até a mesma origem: - O Concílio. Por isso, as chaves que você me pergunta para a assim chamada "reforma da reforma" não são outras que as que já foram dadas pelo Concílio Vaticano II na Sacrosanctum Concilium e pelo posterior magistério dos Papas, que indicam e interpretam autenticamente seus ensinamentos conforme uma "hermenêutica da continuidade".
[ATUALIZAÇÃO] continua o Cardeal: Vivemos numa situação dramática, caracterizada pelo esquecimento de Deus e pelo viver como se Deus não existisse; isto, como é evidente e palpável, está promovendo gravíssimas conseqüências aos homens. Só a vida litúrgica posta no centro de tudo, só uma renovação litúrgica em profundidade, somente a restituição da liturgia, e singularmente da Eucaristia, ao lugar que lhe corresponde na vida da Igreja, dos sacerdotes e dos fiéis, tal como a Igreja a entende, a orienta e regula, em fidelidade com a natureza e com a Tradição, poderá nos fazer voltar verdadeiramente para Deus, situar Deus no centro, fundamento, sentido e meta de tudo, e assim, tornar possível uma humanidade nova, feita de homens e mulheres novos que adoram a Deus; abrir caminhos de esperança e iluminar o mundo com a luz e a beleza da caridade que a liturgia faz brotar: a liturgia nos situa diante de Deus mesmo, diante a ação de Deus, Seu amor; só poderemos impulsionar uma urgente e premiada nova evangelização se a liturgia recobra o lugar que a pertence na vida de todos os cristãos.
É preciso, segundo vejo, reconhecer que a liturgia hoje não está sendo a alma, a fonte e a meta da vida de muitos cristãos, leigos ou sacerdotes: quanta rotina e mediocridade, quanta trivialização e superficialidade nos têm metido! Quantas missas celebradas de qualquer maneira ou assistidas com qualquer disposição! Aqui está nossa grande debilidade. É muito necessário levar ao conhecimento dos fiéis que a liturgia é, antes de tudo, obra de Deus, e que nada se pode antepor a ela. Somente Deus, a “revolução de Deus”, Deus no centro de tudo, poderá renovar e mudar o mundo.
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Todavia - embora sejam importantes as palavras do Cardeal Canizares -, há que se ressaltar que tudo corre o risco de continuar mero discurso, mero “projeto de renovação do sentido litúrgico”, se 1) homens errados forem nomeados bispos; 2) Não se agir disciplinarmente em relação à RCC, Neocatecumenato, Taizé etc, que não se cansam de desmitificar a liturgia, ou, usando as palavras do próprio Cardeal: que têm nos metido numa "rotina e mediocridade, numa trivialização e superficialidade" e 3) se olhar para a Tradição não como argumento de parlatório, mas como fonte indefectível de segurança para fé.
Fonte: Santa Maria Reina













